Quem dá esmola não dá futuro

Interessante a campanha efetivada por dada Prefeitura Municipal, através de sua Secretaria de Desenvolvimento Social. Fez afixar, nos principais semáforos da área central da capital catarinense, uma tabuleta com estes dizeres: “Quem dá esmola não dá futuro. – Se você quer realmente ajudar, ligue…” e apresenta um ramal telefônico para orientação dos interessados.

005

A atitude – louvável e oportuna – objetiva a diminuição do número de pedintes nestes locais, motivada em muito pela expansão desordenada do contingente populacional, considerando a migração de diversas pessoas de suas terras natais (no interior do Estado) para a metrópole, originando o crescimento de favelas e aumentado a atividade de esmolar, principalmente por parte de crianças, adolescentes e mulheres, nos logradouros públicos.

A situação em tela propicia uma abordagem acerca da chamadasolidariedade social, onde os mais aptos, os mais privilegiados por condições materiais ou intelecto-cognitivas, devem disponibilizar o mínimo necessário aos que não possuem. Contudo, há diversas formas de ajudar. Há variadas possibilidades de atacar o problema. O exemplo da administração pública florianopolitana nos faz meditar acerca de “como” estamos agindo. Senão, vejamos…

Quantas vezes somos abordados por pessoas (em nossos lares, ou no trajeto costumeiro trabalho-casa-escola) por pedintes? É um “trocadinho” aqui, uma “esmolinha” ali, um “realzinho” acolá… Ou, dinheiro para a condução, para o remédio, para o pão, o leite, o gás… Ou, ainda, uma roupa ou sapato velho, um agasalho, um cobertor… E as vezes em que o pedinte é uma criança, bem jovem mesmo? Qual nossa reação e atitude diante disto? Uma companheira que trabalha numa instituição assistencial situada em região muito carente da capital nos confidenciou várias vezes que, no diálogo com crianças (de 4, 5 ou 6 anos de idade), não são raras as vezes em que elas, em diálogos espontâneos, mencionaram que “iriam apanhar bastante se não aparecessem com dinheiro em casa!” Esta é a nossa (triste e preocupante) realidade.

O atendimento envolve, verdadeiramente, o sentimento de solidariedade com a condição de infortúnio do companheiro que de nós se aproxima. Enquadra, fundamentalmente, o dever moral de preocupação com ele e o estímulo de realizar a (melhor) atitude que esteja ao nosso alcance, naquele momento. Se damos desinteressadamente (isto é, sem esperar receber nada em troca) agimos caritativamente, mas, se o nosso óbulo é motivo de ainda mais fracasso e dor para aquele que pede, não temos nós, também, nossa porção de responsabilidade?

Veja o amigo leitor que não estamos desaconselhando a esmola. Pelo contrário, ela por vezes se faz necessária, quando não podemos fazer algo melhor, naquela ocasião. Mas, não haveriam outras alternativas do que simplesmente abrir o bolso e despejar nas mãos do pedinte algumas moedas que nos sobram?

Entendemos que sim. A proposta acima mencionada visa canalizar os recursos disponíveis para projetos ou programas de atendimento à população carente, seja pela construção de casas populares, distribuição de cestas básicas, atendimento em creches e postos hospitalares convenientemente organizados.

Mesmo assim, há os que não confiam nos “políticos” e, por extensão, nas atividades desempenhadas pelos órgãos públicos, alegando a corrupção e o desvio dos recursos públicos. Não entraremos nesta seara, uma vez que não podemos concordar com a tese de que todos sejam corruptos ou incompetentes. Todavia, mesmo assim, paralelamente à atividade pública, há os entes privados, geralmente instituições filantrópicas (sem finalidade lucrativa) que procuram atender aos socialmente carentes, de formas e modos bastante variados.

Então, há numerosas formas de ajudar (realmente) a quem precisa. E, neste aspecto, a tabuleta que inspirou esta nossa crônica está coberta de razões. A esmola acaba sendo, em muitas circunstâncias, uma muleta (constante) na qual se ampara a criatura que não reúne as forças necessárias para deixar a marginalidade social ou superar a condição de indigência. Ou, como no exemplo trazido no início deste ensaio, é mal utilizado por pessoas inescrupulosas ou com poucas luzes morais, que acabam explorando crianças e adolescentes, justamente porque estes despertam, quase sempre, nos adultos, a piedade e a misericórdia.

Se ajudar é considerado por todos como a bandeira da boa-vontade, procuremos aperfeiçoar ainda mais este instrumento de aproximação do outro, na exata noção de quem seja o “próximo”, para que nossa ação a ele endereçada possa conter o chamado amor racional, que se preocupa com quem recebe, para assim disponibilizar o melhor disponível, na dosagem exata das necessidades e da oportunidade de aprendizado – nossa e do outro. E que possamos, enfim, auxiliar! Sempre…